Nota de esclarecimento e repúdio sobre episódio de racismo

A Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo, Ciclocidade, vem por meio desta nota repudiar e tornar pública a violência racista sofrida pela diretora geral da associação, Jô Pereira, também coordenadora do “Preta Vem de Bike! SP” e idealizadora dos projetos “Pedal na Quebrada” e “Mapa Pedal Afetivo” durante as negociações e tratativas para sua participação voluntária no I Summit de Mobilidade promovido pela empresa Grow (Yellow/Grin), no dia 03 de maio de 2019.

O convite feito inicialmente pela responsável da área “Comunidades” um mês antes do evento, foi precedido por três reuniões que dariam início - a partir disso - a uma intensa demanda de tempo e disponibilidade por parte de Jô Pereira - processo pelo qual não identificamos o mesmo grau de exigência com os demais palestrantes.

A última solicitação de reunião, ocorrida dia 01 de maio (durante o feriado do Dia do Trabalho), teve como pauta única a apresentação do conteúdo na íntegra da palestra de Jô Pereira para a responsável pela Comunicação e Relações de Políticas Públicas do Summit. O encontro realizado na residência dessa colaboradora - outro processo sobre o qual não foi identificado o mesmo tratamento com outros palestrantes - teve o intuito de expor falas, palavras, slides e ‘estar a par’ de tudo que seria levado pela Jô ao público do evento. Estratégia compreendida por nós da Ciclocidade como uma atitude descabida, desproporcional e injustificável por parte da colaboradora da empresa. Assim como pela falta de isonomia, uma vez que, conforme o narrado anteriormente, este não foi o mesmo tratamento dado aos demais participantes.

Tal reunião de “alinhamento” durou cerca de 3h - lembrando, de uma quarta-feira de feriado - sendo exigida repetição por diversas vezes do que seria apresentado, agravando ainda mais o fato de que ao longo desse processo expressões foram removidas da narrativa da Jô, conteúdos foram “adequados”, slides e fotos foram excluídos de sua apresentação, configurando nitidamente uma tentativa de “enquadrar” e orientar sua expressão.

Ao final da suposta reunião de trabalho, a funcionária de Comunicação e Relações Públicas da empresa ainda piora a situação ao questionar a Jô: “Como você irá com o cabelo?”, segundo a diretora da Ciclocidade “tal pergunta me estarreceu e respondi que iria com o cabelo do jeito que estava: solto”. Não satisfeita com a resposta, a prepostada Empresa continua: “e se você for de turbante? Turbante é lindo.”  

Jô: “Eu seriamente respondi que não iria de turbante, iria com meu cabelo solto. Após isso todo o incômodo que estava vivenciando por todo aquele tempo tomou proporções violentas para mim, pois estava entendendo que a coação estava recheada na verdade de violência racista. E já no momento de ir embora, na porta de saída, a mesma pessoa diz ´Ah! Dress code é free´ numa tentativa ainda pior de me dizer que eu não sabia estar ou me comportar nesses ambientes, mesmo que no próprio convite não houvesse qualquer menção a roupa”.

Após o ocorrido, Jô Pereira contatou toda a diretoria da Ciclocidade - e também dos outros projetos dos quais ela está envolvida - e relatou sobre o ocorrido. A decisão foi unânime de, antes de qualquer manifestação pública da Associação, iríamos nos reunir e conversar com os diretores da empresa Grow a fim de explicar o ocorrido e compreender que medidas poderiam ser tomadas, acreditando que a empresa faria algo no sentido de coibir fortemente tal atitude e repudiar o racismo.

Ao total foram duas reuniões com equipes da empresa. Na primeira estavam presentes os responsáveis pela área de ‘Comunidade’ e nenhum diretor. O relato sobre as ocorrências foi feito, todos sinalizaram no sentido de realmente ser grave a denúncia - inclusive mencionaram que este seria caso de polícia - e finalizaram apontando buscar soluções para o ocorrido junto aos superiores.

Algumas semanas depois marcaram uma conversa para a qual foi sugerido pela equipe da empresa que a funcionária responsável pelos fatos estivesse presente a fim de retratar-se com a Diretora da Ciclocidade, atitude que não foi aceita por Jô Pereira.

Dia 28 de maio 2019 aconteceu a segunda reunião, dessa vez com as presenças dos diretores da Grow, Marcelo Loureiro e Ricardo Kauffman, além da responsável por ‘Comunidades’, Manuela Colombo. Da Ciclocidade estavam Jô Pereira e Aline Cavalcante.

Após 1h de reunião, fazendo Jô Pereira contar tudo novamente que havia ocorrido e sem apresentar nenhuma solução concreta para o caso, os diretores se solidarizaram e pediram desculpas informando que a Preposta em questão encontrava-se em 'estado total de constrangimento'. Eles mostraram ainda formas de como a empresa está tentando melhorar a diversidade interna ao incorporar uma espécie de “RH Social”, porém não demonstraram nenhum interesse em advertir a funcionária ou encontrar formas de coibir comportamentos semelhantes, em curto prazo.

Tal postura complacente e sem nenhuma responsabilidade quanto ao ocorrido no pré- evento, afirmou a orientação igualmente racista por parte da empresa perante as ocorrências graves e criminosas.

A decisão de tornar isso público após tentativas de escutas, sem resultantes de encaminhamentos de reparação ou combate ao racismo estrutural, classismo e capacitismo, sinaliza o enraizamento de práticas coloniais, estrutural e gritante nas corporações. Para a Ciclocidade atitudes assim reforçam desigualdades e violências antes invizibilizadas, mas que cada vez mais precisam ser expostas e exigidas soluções reais. 

Nosso repúdio frente ao grave episódios sofrido pela Diretora, Jô Pereira, não pode ser admitido por nenhum de nós que lutamos por cidades mais cicláveis, justas e respeitosas e nos coloca em estado permanente de alerta também em relação a questões de qualquer discriminação, em especial de gênero, raça e classe.

Esperamos com isso que as empresas e instituições que se aproximam da Ciclocidade passem a ter mais conhecimento e respeito com questões de diversidade. Nos colocamos igualmente a disposição para colaborar com aqueles que se interessam e se importam com essas e outras questões estruturantes que podem provocar marcas profundas de sofrimento nas pessoas e em nossa sociedade.

CICLOCIDADE-  Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo