Sai do carro. Vem pra rua

 

Por Denis Russo Burgierman, jornalista


– Sai da rua, viado.

Já ouvi muitas vezes esse desaforo, lá nos idos dos anos 80, quando eu pedalava pelas ruas tomadas de carro de São Paulo. Era sempre um(a) motorista irritado(a) com o fato de eu ocupar espaço no trânsito. Isso apesar de eu me espremer junto à calçada num esforço para não atrapalhar. Naquele tempo, estava claro: aquele não era lugar para um ciclista.

Na época, eu não pedalava por ativismo, nem porque sonhasse com um novo modelo de cidade, nem por qualquer tipo de consciência ambiental. Consciência o quê: naquele tempo eu jogava lixo na rua sem a menor cerimônia.

Pedalava porque não sabia dirigir. Porque me dava uma sensação de autonomia, de liberdade, de ser dono dos meus caminhos em vez de ter que obedecer a rotas de ônibus criadas em alguma sala fechada por burocratas que iam trabalhar de carro. Pedalava porque achava divertido.

Cresci na guerra do trânsito de São Paulo e, como veterano de guerra que sou, meu coração se endureceu. Fui atropelado quatro vezes, atropelei pedestres duas vezes, quebrei mais espelhinhos retrovisores do que tenho dedos nas mãos. Uma época, cansado dos desaforos gritados pela janela, andava com uma corrente com cadeado sobre os ombros, num sinal ameaçador aos motoristas. Funcionava. Briguei aos berros com inúmeros motoristas de ônibus, chutei carros, tentei arrancar um telefone celular da mão de um motorista engravatado. Tenho as cicatrizes para provar.

Quando me apaixonei e casei, quis recrutar minha esposa para a minha guerra. Ela não queria. Morria de medo do trânsito de São Paulo. Criada nas ladeiras de paralelepípedos de Olinda, onde andar a pé é rápido o suficiente, jamais aprendeu direito a se equilibrar no selim. Convenci-a a experimentar, primeiro num domingo tranquilo e ensolarado. Pedalamos por aí, de um bairro a outro, parando para tomar refrescos.

Quando voltamos para casa, já à tardinha, numa descida suave, seus dentes pareciam querer chegar às orelhas. Ela estava feliz, feliz, feliz. Virou para mim e disse:

É quase como voar.

Me deu um nó na garganta e segurei a vontade de chorar. Tão engajado na guerra eu estava que tinha esquecido disso. É mesmo. Pedalar criança de joelho esfolado ladeira abaixo aos gritos de pavor de alegria cada vez mais rápido o vento o cabelo batendo no olho. É a coisa mais parecida com voar que eu já fiz.

Joaninha amoleceu meu coração. Pedalamos juntos primeiro pela Vila Madalena. Depois pelo Ibirapuera e Liberdade e o centro da cidade. Depois para Itu para a estrada de Cabreúva. Depois para o interior da França cidadezinhas de pedra piqueniques no campo com queijos, pães e morangos comprados direto do produtor. Depois pelo Vietnã, pela Patagônia, pela Estrada Real de Minas, pelo Camboja, pela highway 1 da Califórnia.

Enquanto ela aprendia a andar de bicicleta, voltei a pedalar por achar divertido.

O trânsito de São Paulo é dez vezes pior hoje do que era nos anos 80. Mas ninguém mais me grita para sair da rua. Uns chatos buzinam, mas parece ser mais por hábito do que por raiva. Estamos todos cansados da guerra.

Aí, meu coração amolecido me diz que o inimigo não está dentro do carro. Aliás, não há inimigo. Não há guerra. As pessoas dentro do carro são nossos irmãos, nossos colegas, nossa família, nossos amigos, o rapaz simpático da esquina, a menina bonita da rua de baixo. E estão tão assustadas quanto nós, submersas nesse oceano de buzinadas, fumaça e violência que é São Paulo. Tão assustadas que seus carros têm o design de um tanque de guerra, os vidros são escurecidos, sempre fechados.

Não é fácil encontrar os olhos deles. Mas, quando encontramos, são olhos vazios, como se eles estivessem abdicando de viver ao longo das horas que são obrigados a passar lá dentro. Uns tentam se distrair: ligam o rádio, lêem, estudam inglês, fazem reuniões de negócios. Quase ninguém parece feliz.

Aí, me dá vontade de gritar para eles. Não mais o grito irritado, amargurado, desaforado que me gritavam nos anos 80. Mas um grito amistoso. Um convite.

Sai do carro. Vem prá rua.

[DIA MUNDIAL SEM CARRO 2010]