7%, um número que tem que mudar

 

Ciclista Eliseu

 

Quando observamos o histórico das contagens de ciclistas em busca da participação de mulheres, uma coisa fica muito clara: a situação está feia. E é por isso que devemos agir agora.
 
Contagens de ciclistas tendem a refletir muito bem o cenário de um dia específico. É por esse motivo que, ao fazê-las, as organizações costumam começar cedo, terminar tarde e priorizar dias úteis, o que ajuda a caracterizar o uso da bicicleta como meio de transporte, e não apenas de lazer. Um horário típico para início dos trabalhos é a partir das 6h ou 7h (92%), enquanto o término tende a ser às 19h (54%) ou próximo a isso (44%), normalmente ao longo de uma quinta ou quarta-feira (69%).
 
Se os resultados de uma contagem são retrato de um intervalo de tempo particular, no caso, um dia, isso quer dizer que podem ser distorcidos por eventos acontecidos dentro daquele mesmo período, como chuvas ou acidentes. É aí que entra a importância do histórico, e de amostragens feitas em locais diferentes.
 
Ao todo, entre 2008 e 2015, aconteceram 39 contagens de ciclistas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Aracaju, Recife e Niterói, em pesquisas realizadas pelas associações Ciclocidade, Transporte Ativo, Mountain Bike BH, Ciclo Urbano, Ameciclo e Mobilidade Niterói.
 
Nessas pesquisas, salvo as duas contagens realizadas na Orla de Copacabana e que podem ser consideradas exceções (veja abaixo), a participação de mulheres ciclistas sempre ficou abaixo de 13%. Na verdade, a média das 37 contagens fica em 5,8%. Se considerarmos o histórico como um todo, incluindo as exceções, ainda assim a média é de 6,9%, ou, arredondando, 7%. Para São Paulo, esse número é ainda pior e fica abaixo dos 6%.

O que as exceções nos mostram
 
Em agosto de 2014, a Transporte Ativo fez duas contagens automatizadas na Orla de Copacabana – uma no domingo, dia mais voltado para o lazer, e uma na quarta-feira da mesma semana. Naqueles levantamentos, a participação de ciclistas mulheres ficou em 30% e 27%, respectivamente, uma porcentagem duas vezes maior do que o registrado em outros lugares.
 
Se considerarmos apenas o dado do dia útil, podemos compará-lo a duas contagens da Ameciclo realizadas em abril de 2013, em dois pontos de Recife. Em termos de volume as três são parecidas, todas acima da casa de 3.500 ciclistas, ainda que as de Recife tenham duas horas a mais de intervalo. Se na quarta-feira carioca houve 27% de ciclistas mulheres, na quinta-feira recifense, foram 12,5% na contagem da Avenida Forte e apenas 5,8% na da Avenida Beberibe.
 
O que os levantamentos na Avenida Atlântica sugerem é que as mulheres sentem-se mais inclinadas a andar de bicicleta quando há a sensação de segurança. A Orla de Copacabana é um ponto turístico do Rio de Janeiro e conta tanto com uma ciclovia como com uma área de lazer. A proteção ali, portanto, se dá em dois níveis. Primeiro, porque há muita gente circulando nas ruas e calçadas, seja a pé ou de bike; segundo, porque há uma via exclusiva para o tráfego de bicicletas.

 

Ciclistas Copacabana

A Orla de Copacabana, no dia da contagem feita pela Transporte Ativo.

 

 
Para mulheres, vias exclusivas para bikes são importantes
 
Este segundo fator também é observado em outros levantamentos. Nas próprias contagens citadas do Recife, a Avenida do Forte é uma via coletora entre duas vias arteriais e tinha uma ciclofaixa, por pior que fosse no momento da pesquisa. Já a Avenida Beberibe é uma arterial principal que não possuía faixas de proteção para bicicletas. A segunda apresentou menos da metade de mulheres ciclistas.
 
Ao vermos as pesquisas do Rio de Janeiro, há duas ocasiões em que a Transporte Ativo voltou ao mesmo lugar antes da implantação de ciclofaixas. A primeira, em junho e novembro de 2009, aconteceu na Rua Rodolfo Dantas (ligação entre o metrô Cardeal Arcoverde e a Orla de Copacabana). Ali, embora o número de ciclistas fosse praticamente o mesmo nos dois dias (780), houve um decréscimo de ciclistas mulheres de 7% para 4,7%.
 
Porém, na contagem da Rua Figueiredo de Magalhães, uma estação de metrô depois do primeiro ponto, o intervalo entre os levantamentos foi muito maior. O primeiro aconteceu em julho de 2009 enquanto o segundo ocorreu em março de 2013, mais de três anos depois. Naquele caso, a participação feminina subiu de 6,4% para 14%, um salto expressivo.

O mesmo cenário é observado no caso da Av Eliseu de Almeida, no Butantã (São Paulo). Esta é uma avenida na qual da Ciclocidade acumula um histórico de três levantamentos: dois em sextas-feiras de agosto de 2010 e 2012; um em uma terça-feira de setembro de 2014 - este último, após a implantação parcial de uma ciclovia. Após a estrutura dedicada, o número de ciclistas mulheres aumentou dos 2% e 4% nas primeiras contagens para 7% na última.

Mas o argumento mais forte que relaciona a sensação de segurança, para o caso de ciclistas mulheres, e vias dedicadas é que, de todas as 39 contagens, sempre que a presença feminina ultrapassa a marca dos 10% (10 casos), é porque existe uma estrutura implantada de ciclovia ou ciclofaixa.

 

GT Genero


Um Grupo de Trabalho de Gênero

Para levantar mais dados, criar um diagnóstico sobre a situação das mulheres ciclistas na cidade de São Paulo e fazer propostas e revindicações  para que as políticas de ciclomobilidade sejam verdadeiramente includentes, a Ciclocidade criou um Grupo de Trabalho de Gênero. Saiba mais sobre os objetivos, ações e publicações previstas neste link.

 

Veja também a listagem das 39 contagens de ciclistas usada como base para esta matéria.