Ciclocidade lança Caderno de Discussões e Escutas do Projeto Conexões Territoriais

Com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, a publicação é resultado de um trabalho coletivo realizado a partir de debates online com enfoque nos bairros de Ermelino Matarazzo, Itaim Paulista e Guaianases

A Ciclocidade lançou na noite desta segunda-feira, 29/11, o Caderno de Discussões e Escutas do Projeto Conexões Territoriais, resultado dos Cafés-Encontros que culminaram em seis oficinas-formações realizadas virtualmente, com enfoque nos bairros de Ermelino Matarazzo, Itaim Paulista e Guaianases, na Zona Leste de SP. A publicação contou com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

O trabalho, feito de forma coletiva com representantes de diversas organizações, moradores de áreas periféricas e articuladores locais, trouxe a continuidade da metodologia de Incidência local da Ciclocidade e propôs reflexões sobre mobilidade nas quebradas, racismo, direito à cidade, atuação no território, educação e cultura. 

Jô Pereira, Diretora Geral da associação, abriu o evento, que pode ser conferido na íntegra neste link: “é um projeto de muito afeto para a gente, de muita importância para todo o trabalho de incidência que nós, da Ciclocidade fazemos, principalmente pensando nessa articulação”. Ela lembrou que a realização do caderno só foi possível pela força do trabalho coletivo e passou a palavra para Aloysio Letra, articulador local e autor da introdução da publicação. 

Aloysio falou sobre o convite para participação no projeto: “nos primeiros encontros, as duas pessoas que facilitaram muito o processo de mapeamento foram a Renata Eleuterio, do CPDOC Guaianás e o Renato Almeida, que é um cara valiosíssimo e tem experiência com os movimentos culturais da região de Guaianases”.

Ele citou também a fala de Bruna Sampaio em um dos encontros, sobre as dificuldades de trabalhar com entregas. “São coisas óbvias e corriqueiras pra gente, que é de quebrada, mas às vezes não relacionamos essas questões com o direito à cidade e com a mobilidade em si. Pra gente, é nosso cotidiano. A gente reclama, é zoado, mas muitas vezes não temos a oportunidade de afunilar essas ideias pra pensar como incidir”. A falta de infraestrutura que possibilite a conexão entre subprefeituras nas periferias foi outro ponto destacado. Ele frisou que essa ausência, além da falta de incentivo ao uso da bicicleta, dificultam as trocas culturais e até econômicas entre bairros.   

Carol La Terza, responsável pela organização e revisão do caderno, também participou do lançamento. Ela frisou que todo o processo de produção foi um período de aprendizado contínuo e revelou a satisfação de, ainda que de forma remota, participar de um trabalho de atuação no território: “faltou essa presença física, de sair de casa, sair da bolha”, referindo-se à região central de São Paulo, onde ela reside. “Isso sempre me nutriu muito. Sempre trabalhei com projetos que estiveram pela cidade como um todo, por todas as partes da cidade”, completou. 

A Fundação Rosa Luxemburgo, apoiadora do projeto, foi representada no evento por Daniel Santini. Ele, ao lado de Rafaela Albergaria e Paíque Duques Santarém, é um dos organizadores do livro “Mobilidade Antirracista”. Santini iniciou sua fala recordando o ato de fundação da Ciclocidade, realizado no dia 25 de novembro de 2009, em que ele estava presente. “Foi um momento muito simbólico. Lá atrás já havia essa preocupação, não pode ser um rolê só de um grupo social, um só conjunto de pessoas. Tem que envolver mais gente, misturar, bagunçar a estrutura da cidade. E aí quanto mais gente, melhor”. 

Sobre o caderno, Santini revelou gostar muito do nome do projeto: “a gente precisa de mais conexões e menos muros. Mais possibilidades de circular, não só em relação às regiões centrais, como disse o Aloysio. Precisamos pensar nas conexões entre os vários centros que existem na cidade”. Ele também levantou o debate sobre o sistema de transporte coletivo em São Paulo. “Quem toma essas decisões certamente não anda de ônibus. Na reforma recente, a aposta principal foi em aumentar o número de baldeações. Quem anda de transporte coletivo sabe que isso pode inviabilizar seu uso”, finalizou.

“Nenhum de nós é uma ilha, sem pessoas não fazemos nada”. Assim, Jô Pereira introduziu a participação de Felipe Claros, associado da Ciclocidade e integrante do Coletivo Bike Zona Leste. Claros é ciclista, graduando em Arquitetura e Urbanismo, e também colaborou com a produção do caderno. 

Em seu discurso, ele salientou a quantidade de coletivos existentes na Zona Leste de São Paulo e enfatizou a importância de Jô no papel de integrar esses movimentos: “Em todos os projetos que a gente fez até hoje, a Jô funcionou como uma ponte com várias entradas e várias saídas. Temos muitos movimentos pensando a cidade, aí ela vem e mostra que é fundamental não pensar isso isoladamente. Tem que se unir, juntar todo mundo, porque assim a gente é mais forte”.

Felipe finalizou com um ponto que levou também à audiência pública sobre a expansão da malha cicloviária de São Paulo: a falta de infraestrutura nas periferias. “Isso é uma construção que não para aqui, ela vai continuar. Estamos juntos por uma cidade mais inclusiva para todos. Eu sempre repito, hoje ainda temos Guaianases, Cidade Tiradentes e Perus, três subprefeituras, duas na Zona Leste, fora do mapa da política cicloviária. Ou seja, são pessoas que estão na cidade, mas excluídas de uma política pública”.

Yuri Vasquez, da Ciclocidade, foi a última pessoa a apresentar suas considerações sobre o projeto. Ele também reforçou o caráter do trabalho coletivo da associação, lembrando da quantidade de novas pessoas que vêm sendo alcançadas. “Isso com certeza nos ajuda a chegar a mais lugares. Esse caderno vem pra fechar um ciclo de projetos e ações que a gente vem fazendo naquela região desde 2019 e culmina, inclusive, com o fórum de discussão de mobilidade por bicicletas que acontecerá na Zona Leste nas próximas semanas. Mesmo a gente não sendo responsável pela organização, a gente vê que o que a gente fomentou já está rendendo seus próprios frutos. Isso deixa a gente muito feliz, pois nosso objetivo nunca é dominar a pauta, mas levantar as questões pra que as pessoas passem a enxergar a pauta com um novo olhar”. 

A participação local na revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo, objetivo inicial do projeto, também foi citada por Yuri – o processo  aconteceria no ano de 2021 e foi adiado após a mobilização da Frente São Paulo Pela Vida, recomendações da Defensoria Pública e do Ministério Público de São Paulo, além da atuação dos conselheiros da sociedade civil não empresarial do Conselho Municipal de Política Urbana (CMPU). “A gestão municipal quis empurrar a toque de caixa essa reforma, sem levar em consideração a participação da sociedade civil nas audiências. Conseguiram pensar em um processo que fosse totalmente não-democrático. Aí mudamos de rumo para abrir escuta para movimentos que precisavam refletir sobre seus espaços. E foi muito bom, pois pudemos conhecer melhor os projetos, as lideranças, as organizações, coletivos e centros de cultura de uma região que respira cultura”, completou. 

A Ciclocidade lança mais uma publicação com muito orgulho de todo o processo participativo. O caderno reforça as diretrizes atuais da associação, que tem como foco trazer cada vez mais pessoas para os debates e espaços de participação popular – principalmente aquelas que residem nas franjas de São Paulo e recorrentemente não são atendidas pelas políticas públicas em uma cidade tão desigual. 
Você pode acessar o material na íntegra neste link.