Investir em bicicleta como meio de transporte em São Paulo é erro, dizem especialistas

 

Investir em bicicleta como meio de transporte não é uma boa opção para a capital paulista. O veículo, frágil e de pequeno porte, não tem condições de disputar espaço com os carros e não tem capacidade de aliviar o denso tráfego da maior cidade do País. Na contramão dos planos da prefeitura de expansão e instalação de ciclofaixas e ciclovias, especialistas ouvidos pela reportagem do R7 dizem não acreditar na viabilidade das "magrelas" para desafogar o trânsito de São Paulo.

 

Para Getúlio Hanashiro, especialista em trânsito e ex-secretário de Transportes de São Paulo, do ponto de vista da fluidez e de acidentes, não há condições de colocar bicicletas para competir com carros e poucas vias da cidade têm espaço para ciclovias.

 

— Para implantar ciclovias em alguns locais, teria que reduzir a faixa de trânsito [de carro]. A própria Secretaria de Transportes vem defendendo que ampliar a faixa de rolamento tira vagas de estacionamento. Precisamos de infraestrutura diária para melhorar.

 

Hanashiro afirma que é necessário ser muito seletivo para investir em vias para ciclistas em uma cidade tão grande como São Paulo. Para ele, o problema é colocar ciclovias em grandes avenidas da capital paulista.

 

— É preciso uma seleção muito rigorosa em locais de baixo volume de tráfego ao usuário de bicicleta. Acho que não dá para estimular o uso de bicicleta na avenida Paulista, por exemplo.

 

A visão é compartilhada pelo também especialista em trânsito, Horácio Augusto Figueira. Ele conta que a questão topográfica de São Paulo é um problema para a movimentação de bicicletas. A cidade tem muitas ruas íngremes e com falhas nas calçadas. Além disso, a bicicleta é um transporte individual, o que não resolve o problema de fluxo de um grande número de pessoas.

 

— A bicicleta é um transporte individual. Ela não vai resolver o problema de 10 mil passageiros por hora e ainda vai usar um espaço maior [das vias]. Os corredores de ônibus com faixas à direita e à esquerda seriam a melhor opção.

 

Figueira diz ainda que, para solucionar o problema do trânsito, é preciso investir maciçamente na ampliação das redes de metrô, trem e ônibus. Na opinião dele, a população da cidade ainda precisa se educar sobre o uso da bicicleta para que ela se torne viável.

 

— A bicicleta não é para grandes distâncias, mas você pode conectar bicicletários em estações de metrô e trem e em terminais de ônibus. São coisas que podem funcionar e já têm pessoas aderindo, principalmente os mais jovens.

 

Empréstimo de bikes

Prova do crescimento da adesão apontada por Figueira está no crescimento do projeto piloto instalado na zona sul da cidade. Pouco mais de dois meses após a inauguração, o programa de empréstimo gratuito de bicicletas já soma 10 mil usuários cadastrados só no bairro da Vila Mariana. Segundo a assessoria do Bike Sampa, atualmente, o serviço conta com dez estações de retirada no bairro e um total de cem bicicletas disponíveis.

 

Matheus Barreiros, assessor do Itaú-Unibanco (um dos parceiros do projeto), afirma que, até o final do ano, serão instalados mais cem pontos na zona sul e em um pedaço da zona oeste da cidade. Justamente por essa expansão do programa, ele discorda radicalmente da visão dos especialistas sobre o uso da bicicleta.

 

— A gente acredita que a mobilidade urbana é uma coisa importante para a cidade, ainda mais com a Copa do Mundo chegando.

 

Para a assessoria do do Bike Sampa, Juliana Cookie, com o trânsito caótico, as bicicletas acabam se tornando uma boa alternativa para a circulação nos bairros.

 

— O projeto de compartilhamento de bicicletas é uma alternativa para contribuir com o deslocamento urbano em pequenos trajetos e, também, para a integração com o transporte público.

 

Thiago Benicchio, diretor do Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paul), defende a criação de um plano cicloviário ainda mais amplo que o implantado hoje pela prefeitura. Para ele, a implantação de vias específicas para ciclistas é necessária e viável para formar uma civilização de trânsito compartilhado.

 

— A opção pelo automóvel é irracional e já se mostrou fracassada. É preciso distribuir esse espaço melhor e a ciclovia e a ciclofaixa são formas de você tornar isso mais racional.

 

Prefeitura

 

Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), uma das parceiras do projeto Bike Sampa, a prefeitura tem desenvolvido diversos projetos para melhorar a convivência entre as bicicletas e demais veículos. A malha cicloviária em São Paulo tem mais de 180 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclo rotas, que são sinalizações de que por aquele local passa bicicleta. A CET diz acreditar que as bicicletas podem ser um meio para ser utilizado tanto no quesito transporte, quanto no lazer.

 

 

 

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