Sem medo do "bikelash", a reação negativa às ciclovias

Por Vanessa Correa

Há duas semanas São Paulo assistiu a uma batalha entre o Ministério Público de São Paulo e o cicloativismo paulistano.

Em reação a uma liminar da promotoria que paralisava a implantação de 400 km de ciclovias na cidade, ciclistas urbanos se mobilizaram e lotaram, com suas bicicletas, um dos sentidos da avenida Paulista em 27 de março. Os organizadores estimam que 7.000 compareceram ao evento.

Enquanto os ativistas pedalavam, veio a notícia: o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Renato Nalini, havia derrubado a liminar.

Desde que as obras dos 400 km de ciclovias começaram na cidade, as críticas não pararam. Uma professora de semiótica sugeriu que a cor das novas vias era a “mais descarada propaganda vermelha do PT”, e um então candidato a deputado estadual que teve a mesma percepção recorreu à Justiça Eleitoral. Um morador da rua Honduras, onde foi implantada uma ciclovia, reagiu dizendo que “ciclista não presta”. Comerciantes se mobilizaram contra a ciclovia na praça Villaboim, em Higienópolis e, na Vila Mariana, tentaram remover uma ciclovia que passa em frente a uma escola.

IGUAL EM NOVA YORK

A rejeição ao avanço da bicicleta sobre o espaço dos carros não é exclusividade paulistana. Quatro anos atrás, o sentimento antibicicletas em Nova York ganhou a capa da “New York Magazine”. A matéria intitulada “Bikelash” (algo como “efeito rebote da bicicleta”) veio depois de a associação chamada “Vizinhos por melhores ciclovias” entrar com um processo na Justiça pedindo a remoção da ciclovia ao lado do Prospect Park, no Brooklin.

Capa da New York Magazine sobre o “bikelash”


Protesto contra ciclovia no Brooklin

 

Um cartaz espalhado nas vizinhanças urgia os moradores a se reunirem contra a obra: “Chateado com a ciclovias? Com medo de parar ou mesmo de abrir a porta do carro? Não consegue estacionar? O perigo e o congestionamento causado por essas ciclovias precisa ser parado!”

E o “bikelash” não foi só no Brooklin, mas nos cinco distritos da cidade. Como aqui, comerciantes diziam que as ciclovias diminuíam o movimento. Processos na Justiça pediram o fim do sistema de compartilhamento de bicicletas. Moradores diziam que Nova York não era uma Amsterdã.

Apesar de todas as críticas, as ciclovias novaiorquinas resistiram e hoje a cidade tem mais de 400 km delas.

Embora sejam cidades muito distintas, as razões que as pessoas declaram quando se opõem à implantação de ciclovias em São Paulo são basicamente as mesmas que foram usadas em Nova York. Segundo Doug Gordon, um cicloativista novaiorquino que produziu o bem humorado guia que ensina a lidar com o “bikelash”, as mais comuns são:

  1. Ninguém usa bicicletas, então não precisamos de ciclovias
  2. Ciclistas não se comportam. Eles passam no farol vermelho, vão pela contramão, não seguem a lei, então eles não merecem ciclovias
  3. Bicicletas não servem para o nosso bairro, não há espaço
  4. E, claro, “aqui não é Amsterdã”

Para Gordon, as pessoas nem sempre declaram os reais motivos pelos quais se opõem às ciclovias. “Soa muito egoísta admitir que você não quer uma ciclovia porque isso vai tornar mais difícil estacionar”.

O “BIKELASH” PODE AJUDAR

O americano acredita que o “bikelash” pode ser bom para os ciclistas. “Argumentos absurdos contra as bicicletas podem mobilizar os que apoiam as ciclovias a reagir.”

Em seu “manual”, ele mostra como argumentos inconsistentes ou mentirosos podem ser usados pelo cicloativismo como uma arma, mais ou menos da maneira como foi feito por aqui na legendagem cômica do filme “A queda: as últimas horas de Hitler”, rebatizado de “Hitler contra ciclovias”.

O “bikelash” também revela que há muito apoio da população à segurança nas ruas”, diz Gordon. Esse apoio existe em São Paulo também. Dois em cada três paulistanos (66%) são a favor das ciclovias na cidade, mostra pesquisa Datafolha feita em fevereiro.

Para o cicloativista, a reação negativa às ciclovias tem outro efeito positivo: amplia a cobertura do assunto nos jornais, levando a questão do uso da bicicleta na cidade, normalmente algo discutido apenas entre cicloativistas, a ser amplamente debatida.

Daniel Guth, do Ciclocidade (associação de ciclistas urbanos de São Paulo), acredita que é bom que as manifestações contrárias existam para que o cicloativismo “nunca se desvie do interesse público”. “Isso nos deixa mais unidos. O caso do MP-SP contra as ciclovias é o melhor e mais recente exemplo disso [se referindo à bicicletada que veio depois]. Nos faz argumentar melhor, estudar mais e pensar em ações mais efetivas para termos mais pessoas em mais bicicletas.”

 

Fonte: Blog Seres Urbanos.