Nota-manifesto: cadê a pluralidade no 1º Festival Brasileiro de Filmes Sobre Mobilidade e Segurança Viária?

CartazMobifilm

 

São Paulo, 23 de junho de 2016

Foi com espanto e indignação que a Ciclocidade – Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo observou que para o Seminário a ser realizado durante o 1º Festival Brasileiro de Filmes Sobre Mobilidade e Segurança Viária foram convidados, como palestrantes especialistas nos temas, exclusivamente homens brancos.

A divulgação do evento abre uma chamada a diversos segmentos da sociedade para, em parceria com instituições públicas e privadas, construir e se comprometer com uma agenda e um conjunto de metas, articular e promover ações, visando cidades mais justas e sustentáveis.

Organizar um Festival de Filmes sobre Mobilidade Urbana e Segurança Viária em um País que é o quarto maior do mundo em número de mortes no trânsito(1) é um grande avanço. Incentivar e valorizar a produção audiovisual sobre essa temática constitui um passo estratégico, tanto para sensibilizar a sociedade sobre as vidas ceifadas diariamente, quanto para pautar autoridades e a gestão pública sobre a urgência de se repensar o modelo de cidade que engendra essa triste realidade.

O Festival instiga a participação da sociedade civil a partir de uma constatação real: temos medo de andar pela cidade. Mas como tratar de mobilidade e segurança na cidade, sem considerar a existência de grupos mais vulneráveis - também mais suscetíveis em ambientes violentos - e sem incluir tod@s @s personagens no debate?

Esse evento vem sendo divulgado desde abril e não destinou, no seminário oficial que pauta o debate, lugar de fala para representantes de diferentes gêneros, cores ou etnias, sejam eles/elas pedestres, ciclistas, ou usuári@s do transporte público.

Dar voz exclusivamente a autoridades e a gestores de políticas públicas do gênero masculino não possibilita refletir adequadamente os variados pontos de vista dos grupos que efetivamente estão mais vulneráveis no ambiente urbano. É inaceitável um seminário sem a representação da diversidade de gênero, cores e etnias dentre @s interlocutor@s.

Para ter assegurado o direito de falar, enquanto o outro é silenciado, o sujeito que fala se investe de um poder que lhe é doado por circunstâncias legitimadas pelo lugar que ocupa na sociedade, delimitado em função de sua classe, de sua raça e, entre outros referentes, de seu gênero os quais o definem como o centro, a referência, o paradigma, enfim, do discurso proferido. Historicamente, esse sujeito imbuído do direito de falar - e falar com autoridade – é de classe média-alta, branco, e pertencente ao sexo masculino. (ZOLIN, Lucia Osana. Questões de gênero e de representação na contemporaneidade. Letras, Santa Maria, v. 20, n. 41, p. 183-195, jul./dez. 2010)

Nesse caso, o silenciamento do “outro” - os grupos que sofrem as desigualdades - é causado pela ausência de representatividade no seminário, dado que as mulheres, na população brasileira, constituem 51,6%! Além disso, a falta de especialistas mulheres que sejam referência no tema tampouco pode ser usada como justificativa para essa ausência, pois não é pequena a lista de acadêmicas, gestoras, ativistas e políticas com atuação relevante nas áreas de segurança viária e de mobilidade urbana. A falta de pluralidade d@s sujeit@s no debate apenas reforça a narrativa e a estrutura sexista das instituições. O setor de mobilidade urbana, por sua vez, historicamente mantém apenas os mesmos homens brancos de elite nos espaços de tomada de decisão.

A ausência da presença e da voz das mulheres na discussão sobre qualidade e bem estar nas cidades é ainda mais grave considerando que o machismo ainda faz delas as maiores vítimas de assédio em espaço público e, ainda, as principais responsáveis por todo o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, inclusive dos milhares de homens vitimados pelo trânsito todos os anos. Essa constatação guarda uma relação direta com demandas diferenciadas por viagens e por uma vivência do espaço urbano pautada por essas desigualdades. Como exemplo, as mulheres são maioria dentre as pessoas que caminham e que utilizam ônibus e metrô.

Tendo em vista esse contexto, não podemos aceitar um debate em que mulheres e outros grupos vulneráveis não estejam representad@s ou participar de um debate que não traga a discussão das desigualdades no uso da cidade.

“Apropriar-se do discurso e dominá-lo era [e ainda é] apropriar-se do mundo “ (PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Edusc, 2005)

Essa situação é sintomática, é a reprodução narrativa e simbólica de comportamentos de uma sociedade sexista, racista e centrada no automóvel. Entende-se que gestar um discurso igualitário e democrático, que oriente a construção de cidades mais humanas, é um exercício indispensável para entender e desfragmentar coletivamente essa disparidade de representação ainda tão presente e transversal na nossa sociedade. Somente assim, caminharemos (e pedalaremos) para mais justiça e sustentabilidade nas cidades!

 

Propostas

Nossas propostas são:

  • Paridade de gênero entre debatedoras(es) nos dois seminários internacionais sobre mobilidade e segurança viária;
  • Inclusão de representantes de movimentos sociais da mobilidade urbana entre as(os) debatedoras(es) nos seminários;
  • Paridade de gênero na equipe de curadoras(es) responsável pela seleção dos títulos a serem exibidos no Evento;
  • Incluir questões de desigualdade entre homens e mulheres nos temas a serem debatidos nos seminários;
  • Meta de, no mínimo, 30% dos filmes selecionados de cada categoria (Vídeo-cidadão, Escolares, Universitários, Produção Independente, TVs, Produção Institucional, Publicidade e Animação) sejam dirigidos por mulheres(2).

 

Notas

(1) Levantamento realizado pelo Instituto Avante Brasil a partir dos dados do relatório Global Status Report on Road Safety 2013.
(2) Tendo em vista que a desigualdade de gênero também é um desafio a ser enfrentado na produção audiovisual no Brasil, conforme levantamento feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

Sobre a Ciclocidade
A Ciclocidade foi fundada em novembro de 2009. É uma associação sem fins lucrativos, que tem como missão contribuir para a construção de uma cidade mais sustentável, baseada na igualdade de acesso a direitos, promovendo a mobilidade e o uso da bicicleta como instrumento de transformação.

Sobre o Grupo de Trabalho de Gênero da Ciclocidade
O GT Gênero da Ciclocidade surgiu ao início de 2015 devido a uma inquietação: por que vemos tão poucas mulheres pedalando pelas ruas de São Paulo? A partir disso criou-se o grupo com encontros periódicos e tem como principais objetivos: mobilizar e fortalecer as mulheres ciclistas; levantar informações e relatos sobre a experiência de utilização de bicicletas por mulheres; fomentar o debate e criar diagnósticos sobre mobilidade urbana com perspectiva de gênero. Esses objetivos buscam embasar propostas e reivindicações para que as políticas de ciclomobilidade sejam efetivamente includentes e democratizantes.