PEDALAR EM SÃO PAULO NÃO DEVERIA SER UM ATO DE CORAGEM

Todo 19 de agosto, o calendário lembra do Dia Nacional do Ciclista. Na Ciclocidade, preferimos usar essa data para perguntar: o que muda, de fato, para quem pedala em São Paulo?

A resposta, na maior parte da cidade, ainda é pouca. Ciclovias que terminam no meio de um quarteirão. Ruas sem iluminação suficiente à noite. Motoristas que não guardam distância mínima de 1,50 m. E a insegurança não se distribui de forma igual: ela pesa mais em quem já enfrenta mais barreiras para se deslocar pela cidade, especialmente nas periferias, onde a prioridade de investimento em infraestrutura cicloviária costuma chegar por último – e quando chega!

Não é falta de sorte, é falta de prioridade política

Esse é o ponto central da atuação da Ciclocidade desde 2009: mobilidade por bicicleta não é uma questão de escolha individual de estilo de vida, nem de sorte de morar perto de uma ciclovia bem cuidada. É uma questão de direito, o direito de circular na cidade com segurança, independentemente de onde se mora ou de quanto se ganha.

Em nossa frente de pesquisa está o dado que embasa qualquer discussão séria sobre infraestrutura cicloviária: começamos em 2022 com o Caderno “Como grandes cidades do mundo monitoram o aumento de viagens em bicicleta?“, um benchmarking internacional que serviu de base para o Caderno “Auditoria Cidadã 2022 da Estrutura Cicloviária de São Paulo“, ainda no mesmo ano. A partir desses dois estudos, desenhamos o Caderno “Monitoramento de viagens em bicicleta: Uma proposta para a cidade de São Paulo” (2022), que se tornou, em 2023, o Caderno “Plano de Monitoramento de viagens em bicicleta para a cidade de São Paulo” que foi base para neste ano realizarmos a maior contagem de ciclistas de São Paulo, que foi apresentada em uma audiência pública na Câmara dos vereadores no dia 13/08

Sem contagem de ciclistas, sem monitoramento de viagens, a cidade planeja sem visibilidade e sem considerar a realidade.

São Paulo está pedalando diferente

A meta do PlanClima é que a bicicleta responda por 4% das viagens da cidade até 2030. A estimativa mais recente da pesquisa Origem e Destino do Metrô-SP aponta 1,3% contra 0,82% em 2017. É para acompanhar essa distância sem esperar dez anos pela próxima Origem e Destino que a Ciclocidade conduz, desde 2023, a contagem bienal de ciclistas em parceria institucional com a Prefeitura. E o dado mais direto sobre prioridade política continua sendo a infraestrutura: dos 200 pontos monitorados desde 2023, apenas 7 ganharam estrutura cicloviária nova em três anos.

Em 2026, o número de ciclistas convencionais contados caiu 7,5% em relação a 2023. São 2.750 pessoas a menos nos mesmos 200 pontos, na mesma janela do ano, nos mesmos horários de pico. No mesmo espaço da via, o volume total cresceu 10,25%, porque uma categoria nova, as bicicletas elétricas com motor adaptado, patinetes e autopropelidos, multiplicou por dez sua presença. Separando quem pedala por trabalho de quem pedala por deslocamento, o quadro fica mais duro: entregadores com bag cresceram 83,3%, e todos os demais perfis como cargueiras, garupa e bicicleta compartilhada encolheram. Descontado o uso profissional, a queda de ciclistas chega a 11,8%. A bicicleta que cresce em São Paulo é a bicicleta do trabalho precarizado; a bicicleta de quem só queria ir e voltar está desistindo.

A queda também tem endereço: quatro travessias do eixo oeste, pontes e viadutos sobre o Rio Pinheiros concentram 55% de toda a retração da cidade, e a Zona Oeste sozinha responde por cerca de 70%. Não é um dado isolado de 2026: as contagens intermediárias da CET já mostravam a mesma tendência nessas travessias em 2024 e 2025. É a prova de que a insegurança na via não poupa nem as regiões mais bem providas de infraestrutura, o que só reforça o tamanho do problema nas periferias, onde a base de estrutura cicloviária é ainda mais rala.

Segurança viária é sobre prioridade, não sobre culpa individual

Um erro comum é tratar a segurança no trânsito como resultado de comportamento individual responsabilizando a vítima, tal como falar do ciclista que devia ter usado capacete ou do pedestre que devia ter atravessado na faixa. Esse enquadramento tira o foco de onde ele precisa estar: no desenho da rua, na velocidade permitida, na fiscalização real, e na decisão política de para quem a cidade prioriza espaço e segurança.

A abordagem de Visão Zero e Sistemas Seguros, que orienta boa parte da nossa atuação em segurança viária, parte exatamente desse princípio: erro humano é inevitável, mas morte no trânsito não precisa ser. O caminho está no desenho da via, na velocidade compatível com a presença de gente a pé e de bicicleta,  na fiscalização séria e não na expectativa de que cada pessoa seja perfeitamente cuidadosa o tempo todo.

O que isso tem a ver com raça, território e clima

Segurança viária, na Ciclocidade, nunca é pauta isolada. As periferias de São Paulo concentram tanto a maior necessidade de mobilidade ativa quanto a menor infraestrutura para exercê-la com segurança, e essa desigualdade territorial atravessa raça e classe de forma direta. Ao mesmo tempo, cada viagem feita de bicicleta em vez de carro é uma contribuição concreta à mitigação da crise climática na escala da cidade. Não tratamos essas dimensões como temas paralelos à mobilidade: elas são o ponto de partida de como pensamos qualquer projeto, pesquisa ou campanha. A própria contagem de 2026 mostra isso na prática: nas pontes e viadutos onde a Ciclocidade também contou pedestres, mulheres são 23% de quem atravessa a pé, é quase uma em cada quatro, mas só 5,5% são mulheres utilizando a bicicleta, uma queda frente aos 7,1% de 2023. Elas estão nas ruas mas ainda falta segurança para estar lá pedalando.

E o que fazer com isso?

Se você pedala, hoje é um lembrete de que a sua experiência de insegurança nas ruas não é isolada, e sim um problema coletivo com solução política. Se você não pedala porque não se sente seguro para isso, essa data também é sua: é exatamente essa barreira que trabalhamos para derrubar.

A Ciclocidade é uma associação aberta a qualquer pessoa que acredite que a mobilidade urbana pode e deve melhorar em São Paulo. A experiência de quem pedala e de quem caminha vale tanto quanto qualquer expertise técnica em articulação com o poder público. Você pode se associar a partir de R$ 5 por ano, ter acesso à nossa newsletter exclusiva para as pessoas associadas, ou acompanhar em nossas redes sociais e compartilhar o trabalho que fazemos.

Pedalar em São Paulo não deveria exigir coragem. Trabalhamos para que, um dia, não exija.
Desejamos que nesse Dia do Ciclista, todas as viagens comecem e terminem em segurança e, se possível, alguma viagem seja feita pelo bel prazer de exercer o direito à cidade. 

Dados: Monitoramento de Viagens em Bicicleta 2026, pesquisa realizada pela Ciclocidade com apoio institucional de SMT, CET e GCM, via Termo de Fomento nº 24/SMT/2025 (MROSC).

Acesse a pesquisa.

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